Artigos Clássicos

Retalho Têmporo-Parieto-Occipital de Juri

Publicado em

01/08/2024

Retalho Têmporo-Parieto-Occipital de Juri
Luiz Pimentel, Henrique Radwanski

 

A busca pela eliminação cirúrgica dos sinais da calvície acompanha a evolução da cirurgia plástica, desde os anos 1920. No livro “Chirurgie Esthétique Pure”, de 1931, Passot publica seu retalho homônimo, consistindo em dois retalhos parietais pequenos, que sofrem rotação para cobertura da linha frontal. Havendo dificuldade para alcançar a linha média, esse intervalo seria preenchido com tatuagem. Com esse conceito básico, José Juri, cirurgião plástico da Argentina, procura elaborar um retalho de maior comprimento, que poderia se estender ao longo de toda a linha capilar frontal. Começando em 1966, Juri descobre que, fazendo a autonomização prévia, ele poderia de fato criar um longo retalho, com 2-4 cm de largura. Pelos seus cálculos, esse retalho aportaria até quatro vezes mais quantidade de cabelos em comparação aos retalhos de Passot. Assim, Juri chegou a publicar, em 1975, o retalho TPO: têmporo-parieto-occipital, ou de Juri. Nas suas palavras: “O comprimento do retalho permitia a cobertura de toda a zona de alopécia frontal, chegando à zona pilosa parietal contralateral com facilidade. Um segundo retalho, do outro lado, poderia aumentar a largura dessa cobertura em duas vezes (ie. até 8 cm).” 

Apesar do retalho de Juri não encontrar mais indicação alguma na cirurgia da calvície, há duas razões para recordar este procedimento. Em primeiro lugar, por fazer parte da história da correção cirúrgica da alopécia androgenética, mas principalmente para compreender as sequelas advindas desta operação. Um paciente, de mais idade, que se apresente hoje ao nosso consultório com um resultado do retalho RTPO representa um dos maiores desafios para um cirurgião capilar.

Vamos inicialmente recordar os riscos de se realizar o retalho: sem conhecimento preciso da anatomia vascular (é um retalho pediculado ao ramo posterior da a. temporal superficial), havia a possibilidade da perda total do tecido, e consequentemente de uma quantidade enorme de folículos. O fechamento da área doadora era bastante difícil, ainda mais em casos de pouca elasticidade do couro cabeludo. Havendo dificuldade, era necessário realizar um amplo descolamento de couro cabeludo e de pele cervical abaixo da mastoide, e mesmo assim o fechamento poderia causar algum comprometimento da circulação arterial.

Passados muito anos da realização do retalho, este paciente apresentará hoje os seguintes desafios: uma área doadora com muitas cicatrizes e, devido à tensão no fechamento, uma baixa densidade com cabelos muito finos; uma linha anterior totalmente artificial, sem respeito às entradas e com um tufo denso de cabelos; uma cicatriz anterior ao retalho, bem visível.

O segundo autor esteve com Juri em 1975 e em seguida iniciou sua experiência com o RTPO. O retalho englobava o ramo posterior da artéria temporal superficial para garantia vascular. Se fosse hoje, o trajeto arterial seria mais preciso com emprego de doppler vascular. Para maior certeza de sobrevivência o retalho poderia ser autonomizado, realizando-se as incisões em toda sua extensão e então re-suturado (fig 1). Após período mínimo de três semanas era então descolado e rotacionado para a linha frontal (figs 2,3,4).

Aqui segue relato do meu 1º paciente. Apesar da sobrevivência total do retalho, da inicial estranheza e surpresa do paciente ao ver dia seguinte grande volume de cabelo frontal e aceitação do resultado, da ausência de “entradas” de aspecto natural, da ausência do degradê na linha frontal, da presença de cicatriz linear, e de cabelos com inclinação para trás, este paciente trouxe dois outros para a mesma técnica.

Nos dois pacientes seguintes foi conseguido melhor aspecto dos recessos temporais tendo o retalho sido mais longo na região occipital (figs.5,6,7,8).

Em conclusão, apesar de, naqueles casos, ter ocorrido satisfação dos pacientes, nossa opinião foi que tais retalhos seriam válidos em reconstruções de couro cabeludo porém, em alopecia androgenética, não davam resultado natural e que, com a evolução da calvície, poderiam representar uma piora da naturalidade.

 

Referências:

Juri, J. Use of parieto-occipital flaps in the surgical treatment of baldness. Plastic and Reconstructive Suregry 55: 456, 1975

Juri, J., Juri, J.J. Cirugía Plástica del Cuero Cabelludo. AMOLCA, Buenos Aires, 2007 

 

Caso de TPO operado jovem, apresenta todos os estigmas da cirurgia de retalho.

Fonte:

ABCRC

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