Highlights do World Congress of Trichoscopy: Cancún 2024
Rodrigo Pirmez

Chefe do Centro de Estudos do Cabelo da Santa Casa de Misericórdia – RJ
Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia
Diretor e membro fundador da International Trichoscopy Society
Presidente do World Congress of Trichoscopy – Rio de Janeiro 2026
Nos dias 13 a 16 de junho deste ano aconteceu o World Congress of Trichoscopy (WCT). Organizado pela International Trichoscopy Society (ITS), o evento se consolidou não apenas como a principal referência para a difusão do conhecimento em tricoscopia, mas também para atualizações em todos os tópicos em doenças dos cabelos: desde patogênese até tratamento. O primeiro congresso da ITS ocorreu em 2018, na cidade Varsóvia – Polônia, e o segundo na cidade de Sorrento – Itália, em 2021. O local escolhido para a terceira edição foi a paradisíaca Cancún. O WCT deste ano contou com 850 inscritos e quase 100 palestrantes, sendo metade do país organizador (México) e metade de palestrantes internacionais. Listo aqui alguns dos hot topics discutidos durante o evento.
No tratamento da alopecia androgenética (AGA) feminina foi discutido o uso da bicalutamida como medicação antiandrogênica. As evidências ainda são limitadas, mas a droga parece ser especialmente benéfica em pacientes pré-menopausadas com AGA e seborreia associada. Outro benefício citado seria possível redução da hipertricose (efeito adverso comum do minoxidil oral). As doses publicadas variam entre 10-50 mg/dia. O follow-up laboratorial recomendado consiste em monitorar enzimas hepáticas no primeiro mês e depois a cada 3-6 meses. Pacientes devem interromper o uso 2 meses antes de tentar engravidar.
O uso da bicalutamida 0,5% em mesoterapia também foi citado como terapêutica promissora. A observação se baseia em uma série de casos em que mulheres foram tratadas com aplicações trimestrais apresentando melhora discreta da alopecia, mas também da seborreia.
Um tema interessante foi o uso de medicamentos durante a lactância. Recomenda-se que nos primeiros 7 dias pós-parto qualquer medicação oral para AGA seja evitada, pois há maior risco de excreção pelo leite materno. No entanto, o palestrante discorreu sobre a segurança e a possibilidade do uso do Minoxidil oral e da espironolactona por mulheres lactantes após esse período. Uma orientação adicional para reduzir a quantidade das medicações no leite seria de tomá-las logo após a mamada.
Em minha aula de reposição hormonal, discuti o amplo uso da testosterona e seu impacto negativo sobre a AGA ressaltando que a única indicação baseada em evidência do uso da testosterona em mulheres seria o transtorno do desejo sexual hipoativo e apenas em pacientes após a menopausa. Além disso, trouxe a recomendação do consenso global e o posicionamento do colégio americano de ginecologistas e obstetras que não recomendam o uso de implantes hormonais (o conhecido CHIP da beleza) como via para reposição hormonal, considerando o risco de doses suprafisiológicas e a maior incidência de efeitos adversos.
No campo das alopecias cicatriciais, a patogênese e tratamento da alopecia fibrosante frontal (AFF) também foi tema de interesse. Estudos genéticos em pacientes com AFF evidenciam alterações no gene CYP1B1, responsável pelo metabolismo de estrógenos xenobióticos. Esse achado vem ao encontro de outro importante estudo que identificou níveis aumentados dos receptores de hidracarboneto arílicos (AHR) em biópsias de couro cabeludo de pacientes com AFF. O CYP1B1 é regulado por vários fatores de transcrição, sendo um deles justamente o AHR. Em relação à terapêutica, é marcante a ausência de ensaios clínicos em AFF. Trabalhos do grupo espanhol ressaltam a eficácia da dutasterida para no tratamento da condição. Em uma série de casos publicada pelos autores, a dutasterida oral foi a terapia mais eficaz e com uma resposta dose dependente no controle da AFF. O mecanismo exato da medicação na AFF permanece especulativo. No entanto, de maneira resumida, os autores mencionam possíveis ações antifibróticas, imunomodulatórias e no balanço hormonal para justificar os dados positivos observados.
Não posso deixar de mencionar o tema que agora é presença certa em qualquer congresso de cabelos: o uso dos inibidores da JAK para tratamento da alopecia areata. Em menos de 10 anos essa classe evoluiu de “promissora” para se tornar a única classe de medicamentos com aprovação em bula para o tratamento da alopecia areata grave. Iniciamos com o uso off-label sobretudo do tofacitinibe, um pan-inibidor das JAKs, e temos agora duas medicações com aprovação pela ANVISA: Ritlecitinibe (inibidor específico da JAK3 e família TEC) e Baricitinibe (inibidor das JAKs 1 e 2). A grande novidade no congresso foi o Deuruxolitinibe (também inibidor de JAK 1 e 2) e que foi aprovado recentemente pelo FDA, mas ainda não no Brasil. Em termos de eficácia, ainda não temos estudos head-to-head que nos tragam dados comparativos destas medicações.
Estamos vivendo em das épocas mais emocionantes para se estudar e tratar doenças dos cabelos e couro cabeludo. O entendimento da patogênese de doenças antigas e novas vem permitindo o desenvolvimento de novas terapêuticas. Com isso, a atualização constante, marca da medicina, se torna ainda mais premente. Termino essa coluna convidando a todos para o próximo World Congress of Trichoscopy, que ocorrerá no Rio de Janeiro em 2026 e do qual tenho a honra de ser o presidente.