Transplante em alopecias cicatriciais
Dra. Leila Bloch

As alopecias cicatriciais (AC) são condições em que há destruição permanente dos folículos capilares com substituição por tecido fibroso. Classificam-se em primárias (ACP) quando há destruição do folículo capilar por um mecanismo inflamatório desconhecido. Há quatro principais subtipos de ACP baseados na resposta inflamatória perifolicular: neutrofílica, linfocítica, mista e inespecífica. As alopecias cicatriciais secundárias (ACS), porém, decorrem de destruição do folículo por uma causa não relacionada diretamente a ele, como queimaduras, neoplasias, infecções, trauma ou radiação.
O transplante capilar é uma possibilidade no tratamento de casos avançados de AC, que afetam bastante a autoestima dos pacientes.
O tratamento atual das ACP tem como objetivo reduzir ou inibir a progressão da doença através de corticoides tópicos, infiltração intralesional de triancinolona acetonida, antibióticos, retinóides, hidroxicloroquina e outros. Porém, não há ainda protocolos bem estabelecidos sobre os transplantes capilares nas ACP. Recomenda-se aproximadamente dois anos de estabilidade clínica, no entanto, ainda sem evidências robustas. Não há consenso em relação à realização de cirurgia em área teste previamente ao transplante, já que a redução de sobrevivência dos enxertos ocorre após dois anos do transplante. Também não há definição em relação ao tratamento medicamentoso posterior à cirurgia.
Uma revisão sistemática de 2019 constatou que o transplante capilar pode ser uma opção viável para Alopecia Cicatricial Central Centrífuga, esclerodermia linear "em golpe de sabre", lúpus discóide, pseudopelada de Brocq e foliculite decalvante, enquanto que para Líquen Plano Pilar (LPP) e Alopecia Frontal Fibrosante (AFF) foram encontrados resultados positivos e negativos. O parâmetro de dois anos de remissão clínica não foi fundamentado nessa revisão. A taxa de sobrevivência do enxerto foi de 50% em comparação a 90% nas não cicatriciais. Vale ressaltar a possível interferência do viés de relato positivo.
Em revisão multicêntrica de 2019 com pacientes com AFF submetidos a transplante capilar, verificou-se redução da sobrevivência do enxerto independente do período de remissão clínica. O resultado do transplante capilar em pacientes com AFF foi temporário, ainda que houvesse manutenção da terapia medicamentosa. A satisfação dos pacientes foi alta, mas foi recomendada discussão cuidadosa sobre a duração dos resultados.
Uma revisão sistemática de 2021 concluiu que o transplante capilar é viável em pacientes com AFF e com LPP, porém com resultados menos favoráveis em comparação a outras alopecias cicatriciais.
Em relação às ACS, ainda que haja poucas publicações sobre o tema, sabe-se que não há necessidade de preocupação em relação à estabilidade do quadro clínico. Verificou-se que a rigidez da cicatriz (por atrofia, hipertrofia e fibrose) com perfusão sanguínea reduzida torna a taxa de sobrevivência das UF entre 70 a 90%, inferior aos 95% encontrados em couros cabeludos normais.

Figura 1: AFF em paciente do sexo masculino, 42 anos, com alopecia frontal fibrosante que se manteve em seguimento desde 2016 em tratamento clínico com hidroxicloroquina, dutasterida. A. Quadro clínico antes da cirurgia. B. Foi submetido a transplante capilar em agosto de 2019, por técnica FUT, com desenho conservador, sendo transplantados 5267 fios com repilação abaixo da média em cerca de 15%. Resultado clínico 1 ano após o transplante. C. Paciente manteve-se em tratamento clínico com hidroxicloroquina, dutasterida, minoxidil oral e corticoide tópico. Evoluiu com redução de densidade capilar da área transplantada, mais evidente após dois anos e meio da cirurgia, com cerca de 15% de redução de densidade, mas se manteve bastante satisfeito com o resultado.
Referências
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