Hormônios Andrógenos e Alopecia Androgenética
Dr. Octávio de Oliveira Santos Neto

Endocrinologista e Metabologista com formação e especialização pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Especialista certificado da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
Endocrinologista do Ambulatório de Gênero do Hospital de Clínicas da Unicamp
A alopecia androgenética está intimamente relacionada aos hormônios andrógenos, tais como a deidroepiandrosterona (DHEA), o sulfato de deidroepiandrosterona (SDHEA), a androstenediona e a testosterona. Por serem convertidos em di-hidrotestosterona (DHT), esses hormônios levam a aumento da fase telógena do ciclo capilar e menor duração da fase anágena, levando a uma miniaturização dos fios, diminuição na densidade capilar e potencial atrofia dos folículos capilares.(1, 2)
Desse modo, é imprescindível levantar a suspeita de hiperandrogenismo em pessoas com alopecia, particularmente naquelas do sexo feminino. Mulheres com sinais e sintomas como irregularidade menstrual, amenorreia, acne, hirsutismo e alterações na voz devem ser investigadas quanto ao excesso de hormônios andrógenos.(3)
Investigação etiológica do hiperandrogenismo
A investigação etiológica do excesso de hormônios andrógenos deve incluir uma anamnese detalhada e a dosagem sérica de testosterona, SDHEA, DHEA, androstenediona e 17-OH progesterona. É importante que a coleta desses exames seja na fase folicular do ciclo ovariano, logo nos dias seguintes ao início da menstruação. A paciente também não deve estar em uso de anticoncepcional combinado. Em caso de alterações laboratoriais, o encaminhamento para um endocrinologista pode ser fundamental para a elucidação diagnóstica e tratamento adequado.(3)
A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é responsável por até 80% dos casos de hiperandrogenismo, porém se trata de um diagnóstico de exclusão, devendo ser investigadas outras etiologias ovarianas, (ex. tumor de ovário), doenças adrenais (ex. hiperplasia adrenal congênita, tumores adrenais, síndrome de Cushing) e causas exógenas, incluindo o uso de esteroides anabolizantes. Já nos casos de suspeita clínica de síndrome de Cushing (presença de sinais como pletora facial, giba, obesidade centrípeta, estrias violáceas, equimoses, fraqueza proximal, descontrole pressórico e/ou glicêmico), a investigação é mais complexa e deve contar com o auxílio de um endocrinologista desde o início.(3)
Uso anabolizantes exógenos
O uso de esteroides anabolizantes para fins estéticos é uma prática crescente que traz riscos significativos para a saúde, incluindo a aceleração ou agravamento da alopecia androgenética. São usadas substâncias derivadas sinteticamente da testosterona, que diferem entre si quanto ao potencial androgênico e ação no folículo capilar. A oxandrolona, nandrolona e estanozolol, por exemplo, têm potencial anabólico muito superior ao androgênico, o que leva a menor efeito deletério sobre a pele e cabelo. Além disso, esteroides como boldenona, estanozolol, fluoximesterona, metenolona, drostanolona, oxandrolona, oximetolona, trembolona, methandienona, nandrolona e turinabol não sofrem conversão significativa da 5?-redutase em DHT, que é o hormônio com maior ação danosa à alopecia. Dessa maneira, o uso de tais derivados acaba sendo menos prejudicial à saúde capilar do que quando são utilizados sais como cipionato, propionato e undecilato de testosterona, que sofrem conversão significativa em DHT pela 5?-redutase.(4, 5)
É questionável e carecemos de dados na literatura sobre os benefícios dos inibidores da 5?-redutase nos pacientes que fazem uso de esteroides anabolizantes para fins estéticos. Um dos motivos é que aqueles hormônios que não são convertidos em DHT não precisam ter ação reduzida da 5?-redutase. Já os que sofrem essa conversão são normalmente usados em doses supra fisiológicas, podendo não ser suficiente o bloqueio enzimático esperado pelos tratamentos atualmente disponíveis.(4)
Assim, o manejo da alopecia androgenética exacerbada pelo uso de esteroides anabolizantes começa com a interrupção do uso dessas substâncias. A prevenção através da educação é crucial, especialmente entre jovens e adultos que podem estar propensos a utilizar essas medicações para melhorias estéticas ou de performance, sem estar cientes dos riscos associados.
Conclusão
Como a alopecia androgenética está intimamente ligada ao perfil hormonal, a investigação meticulosa de hiperandrogenismo, com foco em uma anamnese detalhada e exames hormonais apropriados, é crucial para identificar causas subjacentes e direcionar o tratamento de forma eficaz. No contexto do uso de esteroides anabolizantes, é fundamental reconhecer o potencial agravamento da alopecia e a necessidade de cessação do uso dessas substâncias como medida inicial de tratamento. A educação sobre os riscos associados ao uso de esteroides anabolizantes, especialmente entre populações vulneráveis como jovens e adultos que buscam melhorias estéticas ou de performance, é de suma importância para prevenir o desenvolvimento e a progressão da alopecia androgenética. Assim, a colaboração entre diferentes especialistas médicos, como dermatologistas, cirurgiões plásticos e endocrinologistas, é vital para oferecer um tratamento multidisciplinar e integral aos pacientes afetados por essa condição.
Referências:
1. Lolli F, Pallotti F, Rossi A, Fortuna MC, Caro G, Lenzi A, et al. Androgenetic alopecia: a review. Endocrine. 2017;57(1):9-17.
2. Zouboulis CC, Degitz K. Androgen action on human skin -- from basic research to clinical significance. Exp Dermatol. 2004;13 Suppl 4:5-10.
3. Sharma A, Welt CK. Practical Approach to Hyperandrogenism in Women. Med Clin North Am. 2021;105(6):1099-116.
4. Bond P, Smit DL, de Ronde W. Anabolic-androgenic steroids: How do they work and what are the risks? Front Endocrinol (Lausanne). 2022;13:1059473.
5. Cunha TSC, N. S.; Moura, M. J. C. S.; Marcondes, F. K. Esteróides anabólicos androgênicos e sua relação com a prática desportiva. Revista Brasileira de Ciências Farmacêuticas. 2004;40(2).