Dra. Karen Fernandes de Oliveira

Existem diversas condições que cursam com queda de cabelo e que podem imitar a alopecia androgenética (AGA), representando um desafio diagnóstico e terapêutico para cirurgiões de transplante capilar. A alopecia androgenética, uma das causas mais comuns de queda de cabelo, caracteriza-se por um padrão hereditário em homens e mulheres e geralmente responde bem aos tratamentos clínicos e cirúrgico. No entanto, outras alopecias, tanto cicatriciais quanto não cicatriciais, podem se assemelhar a AGA, mas não respondem de forma tão eficaz ao transplante capilar. Algumas dessas condições podem não permitir crescimento capilar satisfatório após o transplante, gerando frustração para pacientes e médicos.
Entre as alopecias não cicatriciais, a alopecia areata (AA) é uma condição autoimune que pode ser confundida com AGA, especialmente quando ocorre na região do vértex. A AA difusa apresenta uma perda de cabelo mais ampla e uniforme podendo ser confundida com a AGA difusa em casos crônicos. O diagnóstico pode ser auxiliado por tricoscopia, que identifica características como pontos amarelos, pontos pretos e fios peládicos (em ponto de exclamação). (Imagem 1). Apesar de existirem tratamentos com esteroides tópicos ou sistêmicos e imunossupressores para o controle da alopecia, o transplante capilar em pacientes com AA é desaconselhado.
As alopecias cicatriciais, por sua vez, são especialmente difíceis de tratar com transplante devido à destruição dos folículos pilosos e à natureza inflamatória. Alopecias como a alopecia frontal fibrosante (AFF) em região frontal e líquen plano pilar (LPP) em região de vértex, por exemplo, podem simular uma AGA ao exame clínico, porém causam cicatrizes permanentes e exigem controle rigoroso da inflamação antes de se considerar o transplante. Na AFF, o recuo da linha frontal e a perda de sobrancelhas são sinais típicos, e são necessários tratamentos sistêmicos com anti andrógenos, anti-inflamatórios e por vezes até imunossupressores além de terapias tópicas para conter a progressão e assegurar estabilidade da doença por anos para avaliar a possibilidade de uma cirurgia de transplante. Ainda sim, é necessário conscientizar o paciente de que embora os resultados a curto prazo possam ser satisfatórios, a perda progressiva dos fios transplantados pode ocorrer ao longo do tempo: mais de 50 % dos fios transplantados podem ser perdidos em até 5 anos após a cirurgia nos pacientes com AFF.
A avaliação do couro cabeludo com tricoscopia e uma biópsia são recomendadas antes de um transplante capilar para distinguir entre AGA e suas condições imitadoras, especialmente nos casos de suspeita de alopecia cicatricial, nos quais o transplante não é a primeira escolha de tratamento. A tricoscopia é uma ferramenta valiosa que permite a visualização com aumento do couro cabeludo e dos fios de cabelo, ajudando a distinguir entre diferentes tipos de alopecia. Na alopecia androgenética há anisotricose de fios terminais, aumento de velos, fios miniaturizados e pontos amarelos (Imagem 2), enquanto no LPP e na AFF, pode-se observar eritema e descamação peripilar, pilli torti, pontos brancos fibróticos e eritema difuso ao exame tricoscópico. (Imagem 3).
Além disso, na avaliação histopatológica, observa-se diminuição da contagem folicular, ausência de glândulas sebáceas infiltrado linfocítico e fibrose perifolicular - informações dadas pelo dermatopatologista que diferenciam o LPP e a AFF da AGA.
Por fim, é essencial que os cirurgiões de transplante capilar estejam atentos aos sinais de inflamação do couro cabeludo, realizem a tricoscopia antes da cirurgia e, se necessário, a biópsia do couro cabeludo. A abordagem cautelosa e a comunicação clara com o paciente sobre as possibilidades e limitações do transplante capilar nesses casos são fundamentais para minimizar decepções e alinhar expectativas quanto à cirurgia de transplante capilar.
Imagem 1: alopecia areata

Imagem 2: alopecia androgenética masculina

Imagem 3: líquen plano pilar

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