Tricologia

Parece, mas não é... A Importância do Diagnóstico Diferencial em Tricologia para o Cirurgião de Transplante Capilar

Publicado em

17/12/2024

Dra. Karen Fernandes de Oliveira

Existem diversas condições que cursam com queda de cabelo e que podem imitar a alopecia androgenética (AGA), representando um desafio diagnóstico e terapêutico para cirurgiões de transplante capilar. A alopecia androgenética, uma das causas mais comuns de queda de cabelo, caracteriza-se por um padrão hereditário em homens e mulheres e geralmente responde bem aos tratamentos clínicos e cirúrgico. No entanto, outras alopecias, tanto cicatriciais quanto não cicatriciais, podem se assemelhar a AGA, mas não respondem de forma tão eficaz ao transplante capilar. Algumas dessas condições podem não permitir crescimento capilar satisfatório após o transplante, gerando frustração para pacientes e médicos.

Entre as alopecias não cicatriciais, a alopecia areata (AA) é uma condição autoimune que pode ser confundida com AGA, especialmente quando ocorre na região do vértex. A AA difusa apresenta uma perda de cabelo mais ampla e uniforme podendo ser confundida com a AGA difusa em casos crônicos. O diagnóstico pode ser auxiliado por tricoscopia, que identifica características como pontos amarelos, pontos pretos e fios peládicos (em ponto de exclamação). (Imagem 1). Apesar de existirem tratamentos com esteroides tópicos ou sistêmicos e imunossupressores para o controle da alopecia, o transplante capilar em pacientes com AA é desaconselhado. 

As alopecias cicatriciais, por sua vez, são especialmente difíceis de tratar com transplante devido à destruição dos folículos pilosos e à natureza inflamatória. Alopecias como a alopecia frontal fibrosante (AFF) em região frontal e líquen plano pilar (LPP) em região de vértex, por exemplo, podem simular uma AGA ao exame clínico, porém causam cicatrizes permanentes e exigem controle rigoroso da inflamação antes de se considerar o transplante. Na AFF, o recuo da linha frontal e a perda de sobrancelhas são sinais típicos, e são necessários tratamentos sistêmicos com anti andrógenos, anti-inflamatórios e por vezes até imunossupressores além de terapias tópicas para conter a progressão e assegurar estabilidade da doença por anos para avaliar a possibilidade de uma cirurgia de transplante. Ainda sim, é necessário conscientizar o paciente de que embora os resultados a curto prazo possam ser satisfatórios, a perda progressiva dos fios transplantados pode ocorrer ao longo do tempo: mais de 50 % dos fios transplantados podem ser perdidos em até 5 anos após a cirurgia nos pacientes com AFF.

A avaliação do couro cabeludo com tricoscopia e uma biópsia são recomendadas antes de um transplante capilar para distinguir entre AGA e suas condições imitadoras, especialmente nos casos de suspeita de alopecia cicatricial, nos quais o transplante não é a primeira escolha de tratamento. A tricoscopia é uma ferramenta valiosa que permite a visualização com aumento do couro cabeludo e dos fios de cabelo, ajudando a distinguir entre diferentes tipos de alopecia. Na alopecia androgenética há anisotricose de fios terminais, aumento de velos, fios miniaturizados e pontos amarelos (Imagem 2), enquanto no LPP e na AFF, pode-se observar eritema e descamação peripilar, pilli torti, pontos brancos fibróticos e eritema difuso ao exame tricoscópico. (Imagem 3).

Além disso, na avaliação histopatológica, observa-se diminuição da contagem folicular, ausência de glândulas sebáceas infiltrado linfocítico e fibrose perifolicular - informações dadas pelo dermatopatologista que diferenciam o LPP e a AFF da AGA.

Por fim, é essencial que os cirurgiões de transplante capilar estejam atentos aos sinais de inflamação do couro cabeludo, realizem a tricoscopia antes da cirurgia e, se necessário, a biópsia do couro cabeludo. A abordagem cautelosa e a comunicação clara com o paciente sobre as possibilidades e limitações do transplante capilar nesses casos são fundamentais para minimizar decepções e alinhar expectativas quanto à cirurgia de transplante capilar.

Imagem 1: alopecia areata

Imagem 2: alopecia androgenética masculina

Imagem 3: líquen plano pilar

Referências bibliográficas sugeridas:

  1. KHUTSISHVILI, N.; RUDNICKA, L.; OVCHARENKO, Y.; et al. Trichoscopy - A valuable tool for identifying conditions mimicking androgenetic alopecia. International Journal of Dermatology, v. 63, n. 1, p. 23-31, 2024. DOI: 10.1111/ijd.16895.

  2. OLIVEIRA, K. F. Tricoscopia: o que o cirurgião de calvície precisa saber. In: MURICY, M. A.; MURICY, J. C. Métodos Avançados de Transplante Capilar FUE. 1. ed. Rio de Janeiro: Dilivros Editora, 2024. p. 39-48.

  3. MUBKI, T.; RUDNICKA, L.; OLSZEWSKA, M.; SHAPIRO, J. Evaluation and diagnosis of the hair loss patient: part II. Trichoscopic and laboratory evaluations. Journal of the American Academy of Dermatology, v. 71, n. 3, p. 431.e1-431.e11, 2014. DOI: 10.1016/j.jaad.2014.05.008.

  4. RUDNICKA, L.; RAKOWSKA, A.; KERZEJA, M.; OLSZEWSKA, M. Hair shafts in trichoscopy: clues for diagnosis of hair and scalp diseases. Dermatologic Clinics, v. 31, n. 4, p. 695-708, 2013. DOI: 10.1016/j.det.2013.06.007.

  5. DONATI, A.; KAKIZAKI, P. Manual de condutas em tricologia. 1. ed. Rio de Janeiro: Dilivros Editora, 2023.

  6. FERNÁNDEZ-DOMPER, L.; BALLESTEROS-REDONDO, M.; VANO-GALVÁN, S. Trichoscopy: an update. Actas Dermosifiliogr., v. 114, n. 4, p. 327-333, abr. 2023.

  7. ISSA, N. T.; TOSTI, A. Trichoscopy in alopecia areata. Actas Dermosifiliogr., v. 114, n. 1, p. 25-32, jan. 2023.

  8. LACARRUBBA, F.; MICALI, G.; TOSTI, A. Trichoscopy for the hair transplant surgeon - assessing for mimickers of androgenetic alopecia and preoperative evaluation of donor site area. Indian Journal of Plastic Surgery, v. 54, n. 4, p. 393-398, 2021.

  9. MUBKI, T.; RUDNICKA, L.; OLSZEWSKA, M.; RAKOWSKA, A. Atlas of trichoscopy: dermoscopy in hair and scalp diseases. 1st ed. London: Springer-Verlag, 2012.

  10. RUDNICKA, L.; OLSZEWSKA, M.; RAKOWSKA, A.; SLOWINSKA, M. Trichoscopy update 2011. Journal of Dermatology Case Reports, v. 5, n. 4, p. 82-88, 12 dez. 2011.

  11. VAÑÓ-GALVÁN S, et al. Hair transplant in frontal fibrosing alopecia: A multicenter review of 51 patients. J Am Acad Dermatol. 2019 Sep;81(3):865-866. doi: 10.1016/j.jaad.2019.05.031

Fonte:

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